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quinta-feira, 11 de julho de 2013

Ideias - Conferência (tradução)
Ler a leitura*


Roger Chartier

Em seu pequeno livro A importância do ato de ler, Paulo Freire distinguia dois sentidos da palavra “ler” (Paulo Freire, 1982). Um sentido literal: ler é ler letras, palavras, livros. Esta leitura supõe a alfabetização, a aprendizagem escolar, o domínio da palavra escrita. Porém, ler tem também um sentido metafórico. Ler é, antes e depois da leitura de livros, “ler” o mundo, a natureza, a memória, os gestos, os sentimentos –, tudo o que Paulo Freire designa com o neologismo palavramundo. Ler a leitura, como indica o título de minha conferência, é talvez entender as relações entre estes dois sentidos do verbo “ler”, considerando, por um lado, a especificidade da leitura de livros – que deve evitar o perigo de um uso descontrolado e excessivo da palavra, como se toda “leitura” estivesse governada pelas regras que caracterizam o deciframento dos textos – e, por outro lado, os processos que organizam segundo lógicas muito diferentes a compreensão imediata do mundo, das experiências da existência e seu encontro com a escrita.

Em 1968, num ensaio que se tornou célebre, Roland Barthes associava a onipotência do leitor com a morte do autor (Roland Barthes, 1968). Destronado de sua antiga soberania sobre a linguagem ou pelas “escrituras múltiplas, surgidas de diversas culturas e que estabelecem entre si uma relação de diálogo, paródia e de oposição”, o autor deve ceder sua premência ao leitor, entendido como “aquele que reúne em um mesmo campo todas as características que constituem o escrito”. O lugar da leitura era, portanto, considerado como aquele em que se reordena o sentido plural, móbil e instável do texto, como o lugar onde o escrito adquire sua significação.

Entretanto, pouco tempo depois de reconhecido o nascimento do leitor, se multiplicaram os diagnósticos que anunciaram a sua morte. Estes diagnósticos se apresentam de três formas:

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Ideias - tradução
O futuro da educação superior será online?* (3/3)


Nathan Heller

“Posso facilmente imaginar uma grande instituição, como Harvard, com um grande e dinâmico arquivo, onde, mesmo depois que eu me for – não apenas me aposentar, mas vamos dizer realmente ir-me, quero dizer, morrer – aspectos do curso poderiam entrelaçar-se com gerações posteriores de professores e pesquisadores”, contou-me Nagy. “O próprio Aquiles diz, na Rapsódia 9, Linha 413: ‘Eu morrerei, mas essa história será como uma bela flor que nunca murcha’.”

Em Cambridge, quando o clima começa a esquentar, as fragrâncias retornam: primeiro, há um suave, leve aroma de terra e de nevoeiro; a grama regressa; e as árvores começam a florescer no pátio da biblioteca de livros antigos de Harvard. Jardineiros recolhem as folhas. Num dos primeiros dias quentes do ano, conheci Peter J. Burgard, um professor de alemão na Universidade de Harvard, na entrada traseira da Biblioteca Widener, onde ele mantém um local de estudo separado de seu escritório.

Ideias - tradução
O futuro da educação superior será online?* (2/3)


Nathan Heller

Quando as pessoas se referem à “educação superior” neste país, elas estão falando sobre dois sistemas. Um deles é de elite. Ele é feito em faculdades seletivas em que as pessoas ingressam – faculdades como Harvard e também como U.C. Santa Cruz, Northeastern, Penn State e Kenyon. Todas essas instituições deixam a maioria dos candidatos de fora, e todas elas perseguem uma comum, ainda que vaga, noção do que as universidades ambicionam significar. Quando as faculdades aparecem nos filmes, elas são verdejantes, pátios planejados com árvores em meio a edifícios georgianos ou góticos (ou georgiano-gótico). Quando os catálogos dessas universidades chegam pelo correio, com frequência parecem a mesma coisa. As possibilidades são: você irá encontrar um jovem byroniano lendo “Meditações cartesianas” num banco debaixo de um olmo, ou talvez seu romântico primo, um rapaz da Nova Inglaterra, com os cabelos desgrenhados, com uma mochila nas costas pendurada em um ombro. Ele está andando com uma encantadora e séria jovem, que aparentemente gosta de lenços, e, possivelmente, de Shelley. Eles estão sorrindo. Todo mundo está sorrindo. Os professores estão amigavelmente vestidos, com óculos no estilo Rick Moranis, sorriem, embora estejam trabalhando duro em uma grande mesa com um estudante ansioso, compartilhando um livro aberto e gesticulando como se estivessem pesando dois grandes frutos esféricos inteiros. As universidades são lugares especiais, acreditamos: jardins onde o povo escolhido escapa de suas vidas normais para cultivar a Vida Mental.

As universidades são lugares especiais: jardins onde o povo escolhido escapa de suas vidas normais para cultivar a Vida Mental
Porém, não é esse o tipo de educação superior que a maioria dos americanos conhece. A grande maioria das pessoas que têm educação além do secundário vão para as faculdades comunitárias e outras faculdades regionais não seletivas. A maioria dos que se aplicam são aceitos. Os professores de lá, dos quais nem todos têm doutorado ou obtêm apoio à pesquisa, podem parecer inquietos e atormentados. Os alunos também podem. Alguns frequentam a faculdade em meio período, fazendo malabarismos entre seu estudo acadêmico, a família ou trabalhos de período integral, e por isso a taxa de evasão e o tempo para conclusão é maior do que em instituições de elite. Muitas universidades são financiadas no limite, ou estão sob a fina camada de gelo dos comitês de certificação; há poucos pátios envolvidos. O curso muitas vezes prepara os alunos para profissões específicas ou habilidades necessárias. Se você quer ser treinado como um médico assistente, há um caminho para isso. Se você quer aprender a operar um espectrômetro infravermelho, existe um curso para mostrar-lhe como. Este é o braço populista do ensino superior. É responsável por cerca de oitenta por cento das faculdades nos Estados Unidos.

Ideias - tradução
O futuro da educação superior será online?*


Nathan Heller

Gregory Nagy, um professor de literatura grega clássica na Universidade de Harvard, é o típico acadêmico cortês que, perguntado sobre o futuro, vai começar a falar de Homero e de batalhas de um passado distante. Aos setenta anos, ele tem os olhos de uma coruja, um queimado nariz húngaro, e uma tendência a gesticular largamente com as palmas das mãos. Ele veste uma camisa branca e blazer escuro que substituíram o tweed como o traje da casta acadêmica. Seu cabelo, também branco, muitas vezes parece maltratado pelo vento de Boston. Enquanto alguns acadêmicos possuem um estilo sentencioso, Nagy estrutura suas longas frases com finas camadas de exposição. (“Há cerca de dez trechos e por trechos eu simplesmente quero dizer um texto selecionado, e esses trechos são destinados à leitura atenta, e às vezes eu vou estar me referindo a esses trechos como textos, ou passagens de foco, mas você sabe que eu quero dizer a mesma coisa e cada um deles requer leitura atenta!”) Quando ele fala fora da sala de aula, ele sufoca amigos e alunos com uma mistura de lisonja e louvor. “Obrigado, Adorável Kevin”, ele poderia dizer. Ou: “A Grande Claudia coloca isso tão bem”. Visto de um modo simples, ele poderia ser tomado por um proprietário de um antiquário: um homem tanto cheio do entusiasmo solícito quanto preocupado pelos clientes estarem ficando, talvez, um pouco perto demais de sua premiada cadeira Louis XVI.

Nagy não publicou nenhum best-seller. Ele não é um rosto constante na TV. Desde 1978, entretanto, ele tem ministrado um curso chamado “Conceitos de Herói na Civilização Grega Clássica”, e o curso, uma investigação da poesia, tragédia e diálogos platônicos, fez dele uma figura do campus. Uma vez que o entusiasmo de Nagy pelos textos homéricos é ilimitado, suas aulas refletem décadas de refinamento, e porque o curso é pensado para oferecer uma curva cumulativa suave (seu apelido no campus é Heróis para Zeróis), ele tem comumente enchido a sala 105, no Auditório Emerson, uma das maiores salas de aula de Harvard. As matrículas chegam regularmente às centenas.