quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A biblioteca que virou pó


Luiz Ruffato

Descobri, frustrado, que os livros que havia adquirido ao longo de toda minha vida – estamos falando de fins dos anos 1990 – não caberiam no apartamento para onde estava me mudando em São Paulo, pequeno e mal arejado. Após inúmeras noites sem dormir, percebi que a melhor maneira de me desvencilhar deles, sem perdê-los de vista, seria organizar uma biblioteca na Taquara Preta, bairro operário de Cataguases, onde moravam meus pais.

Conversando com minha mãe, ela, católica praticante, sugeriu que nos orientássemos com o padre responsável pela igreja de São Cristóvão, que, por coincidência, era natural da colônia italiana de Rodeiro, portanto, filho de família amiga. No domingo pela manhã, logo após a missa das sete, ele nos recebeu e, sinceramente entusiasmado pela idéia, colocou à disposição um cômodo, ao lado do salão paroquial.

Embalei os volumes com carinho, consegui transporte barato para as caixas. Na primeira oportunidade, comprei, de segunda mão, algumas estantes de aço, e, pessoalmente, organizei os títulos por gênero, nacionalidade e sobrenome do autor. Orgulhoso com a iniciativa, voltei para São Paulo e dormi noites de rei imaginando leitores descortinando novas janelas... Qual não foi minha decepção quando, após vários meses, constatei que raras pessoas haviam se interessado em conhecer o local e, destas, menos de uma dezena havia tomado livros de empréstimos...

Desapontado, erigi várias explicações possíveis. Mas quem me forneceu uma elucidação incontestável foi meu pai. Percebendo meu abatimento e inteirado do assunto, ele, diácono de uma igreja pentecostal, me disse, com clareza, Meu filho, o problema é que aqui no bairro a maioria do povo é evangélico... Ninguém vai por os pés para dentro do adro de uma igreja católica... Acatei seu argumento e busquei convencer minha mãe, sabendo que alimentava, de forma involuntária, uma tensão religiosa sob nosso teto. Fui ao padre, expliquei meu dilema, e, mesmo contrariado, ele aceitou a mudança.

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Foto: Flickr/Michael_Lehet (CC BY-ND 2.0)

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